Amor à Primeira Vista entre Brava e
Sintra
Recordação de uma Geminação de 20
anos
Por Jorge Trigo[1]
Em 5 de Maio de 1995, no Palácio Valenças, em Sintra, era
assinado o acordo de geminação entre os municípios da Brava (Cabo Verde) e de
Sintra. O protocolo assinado ficou a fazer parte, com destaque, da história das
duas populações, através dos presidentes respetivamente Jorge Nogueira e Dra. Edite
Estrela.
“A sensação de alegria era plena, quase tangível, e um sonho,
há séculos acalentado, tomava corpo. O Fado premonitório do Sintrense solitário
e melancólico que subjugado pela saudade demandava terras estranhas amargurado
pelo exílio forçado, tentando encontrar na longínqua, isolada e remota ilha
Brava, um pedacinho da sua Sintra adorada, era finalmente cumprido.” Estas
palavras foram proferidas pelo vice-presidente da Câmara da Brava, Miguel Vieira,
dois anos depois, no seu discurso na Festa da Língua Portuguesa, ocorrida em
Sintra, de 29 de junho a 4 de julho de 1997. “Entre Brava e Sintra foi amor à
primeira vista!”, assim considerou o autarca bravense.
Poucos meses depois de assinado o protocolo em Sintra, em 24
de junho de 1995, uma delegação do município sintrense, encabeçada pela
presidente da Câmara, visitava a Brava. Essa geminação começou cedo a dar
frutos. No Verão e Outono desse ano uma epidemia de cólera assolou a ilha e
prontamente o município de Sintra enviou medicamentos e utensílios de saúde. Na
área da Cultura e da Comunicação, a presidente Edite Estrela e os autarcas
sintrenses ofereceram centenas de obras literárias que permitiram a criação de
uma biblioteca na Vila de Nova Sintra, principal localidade da ilha. Também foi
doada uma antena parabólica que permitiu aos bravenses a captação das emissões
da RTP Internacional.
Tive o privilégio de assistir à assinatura do protocolo no
Palácio Valenças e depois de fazer parte da delegação que se deslocou à Brava,
como cabeça-de-lista do grupo parlamentar socialista da Assembleia Municipal de
Sintra. Em 1997 fui, na qualidade de Presidente da Assembleia Municipal, um dos
três membros da Mesa de Honra da Sessão de Abertura da Festa da Língua
Portuguesa. Foi constituída pelo presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, que
presidiu, pela presidente da Câmara, Dra. Edite Estrela e por mim. Esta iniciativa constituiu “um momento único,
de encontro entre povos pertencentes à Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa e Timor-Leste”, graças ao empenho, ao entusiasmo e à determinação,
sobretudo, da Dra. Edite Estrela.
E mais uma vez, como atrás referido, Cabo Verde e em especial
Nova Sintra tiveram o destaque merecido.
A Brava é terra de Eugénio Tavares, figura maior da
literatura caboverdeana, um nome grande da diáspora, o poeta eleito das mornas
inesquecíveis e imortais, que continua a ser lembrado, homenageado, enaltecido
pelo seu país e pelo mundo, com destaque para os Estados Unidos da América.
A Fundação Eugénio Tavares, sediada no concelho de Sintra, através
do seu presidente, Eugénio Sena, que fez parte da delegação que em 1995 se
deslocou à Brava, tem pugnado pela preservação do seu espólio, da sua memória,
da sua cultura.
Agora que se desenvolve o processo com vista à candidatura da
Morna a Património Imaterial da Humanidade, ainda mais Eugénio sobressai porque
ele é o autor das mais lindas mornas que se escreveram e cantaram.
A geminação com a Brava já tem 20 anos. Como forma de
comemorar, a Câmara Municipal de Sintra enviou em 2015 dois técnicos à ilha para
colaborarem, entre 30 de abril e 3 de junho, num projeto que se desenvolve pela
Câmara da Brava de calcetamento em “calçada à portuguesa” da Praça Eugénio
Tavares. O apoio foi técnico e na formação de trabalhadores daquele Município,
no âmbito do calcetamento artístico.
Importa reforçar essa ligação cada vez mais, veiculando, como
refere a edilidade sintrense, “o crescente aprofundamento e consequente
colaboração institucional, cuja missão primordial visa a satisfação das necessidades
económicas, sociais e culturais das respetivas populações.”
Sintra e Brava – Um Amor à Primeira Vista!

